Governo espera impactos da guerra comercial entre EUA e China na indústria brasileira

BRASÍLIA — O acirramento da guerra comercial entre Estados Unidos e China deve ter desdobramentos no Brasil. A instabilidade no cenário global deve encarecer os custos de logística e seguros e pode mudar o desenho do comércio mundial. De acordo com expectativas de técnicos ouvidos pelo GLOBO, alguns setores podem se privilegiar como o agronegócio, mas o ganho seria momento. Há, entretanto, vários outros segmentos que devem ser prejudicados permanentemente. Em alguns nichos, as s empresas podem sofrer uma invasão de produtos chineses que deveriam ir para o mercado americano, mas tiveram a rota desviada pelas barreiras comerciais impostas pelo governo Donald Trump.

Isso pode, na visão de integrantes da equipe econômica, afetar não apenas o mercado interno, mas também o desempenho das exportações brasileiras. Os produtos daqui terão de brigar com um afinco muito maior pelo mercado com uma economia forte com a chinesa.

— Supondo que a produção chinesa não diminuirá, a tendência é que sejam mais agressivos comercialmente em outros mercados — falou um membro da equipe econômica sob condição de sigilo. — A União Europeia, no caso do aço, já tratou de fechar mercado, com medo desse efeito.

Apesar dessa perspectiva, a tendência do Brasil é não entrar em rota de colisão com os Estados Unidos. Está no radar do governo um alerta para um importante setor da economia brasileira: o de autopeças. Ainda não há decisão da administração Trump sobre o assunto, mas os americanos começaram a levantar informações sobre esse mercado e há receio de que medidas sejam tomadas.

Também não é interessante comprar briga porque o governo Michel Temer está praticamente no fim. Além disso, os técnicos sabem que o poder de pressão do Brasil é baixo.

No passado, mesmo tendo vencido a disputa contra o governo americano pelos subsídios à produção de algodão, o país não tinha força para impor sanções porque prejudicaria a indústria nacional, que compra insumos e maquinário dos Estados Unidos. A saída foi ameaçar quebrar propriedade intelectual para fazer com que o governo americano chegasse a um acordo.

Já a China tem um poder de pressão grande sobre os americanos: o grande volume que compra de produtos agrícolas. Por isso, estrategicamente, decidiu retaliar os Estados Unidos justamente com salvaguardas nesse segmento, que tem um forte poder de lobby sobre a administração Trump.

Nesse intervalo, o Brasil pode se beneficiar, por exemplo, para exportar soja para os chineses. No entanto, o governo brasileiro não encara isso como uma vantagem comercial. O ministro da Agricultura, Blairo Maggi, disse nesta terça-feira que a escalada da tensão comercial “só vai atrapalhar o país” e é muito prejudicial ao agronegócio brasileiro.

— O Brasil pode ter um prêmio. Cai Chicago, sobe o prêmio aqui e equipara um pouco (o preço) para o agricultor brasileiro. Mas isto tem efeitos colaterais muito ruins na produção de carnes do Brasil — falou o ministro que explicou os impactos nos preços da ração e, consequentemente, na competitividade dos produtos brasileiros. — Para mim, a atitude do Trump em relação ao agro é muito prejudicial ao agronegócio.

Welber Barral, ex-secretário de comércio exterior do Ministério do Desenvolvimento e sócio da Barral M Jorge Consultoria, a disputa entre os dois gigantes afetará o mundo inteiro. Ele lembra que alguns especialistas já preveem impactos de 2% a 3% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Aposta em efeitos negativos nas cadeias globais de produção, que foram instaladas antes das medidas protecionistas dos Estados Unidos.

— Guerra comercial não é bom ninguém. Deve ter um efeito sistêmico muito negativo porque aumenta a instabilidade e aumenta o custo de seguro e logística _ falou o especialista, que completou: — O governo brasileiro está se fazendo de morto. Estamos no fim do governo e ele não quer tomar decisões que podem implicar o próximo porque o Brasil não tem muito espaço para retaliar.

 

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