Mercosul reage a protecionismo de Trump e busca acordo comercial com o Canadá

Decisão dos EUA de fechar as portas ao aço e ao alumínio do exterior também pode acelerar acordo dos membros do bloco sul-americano com a União Europeia, segundo especialistas

O mundo parece avançar suas negociações sem os Estados Unidos. Um dia depois do presidente dos EUA, Donald Trump, fechar as portas ao aço e ao alumínio do exterior, o Mercosul deu início à negociação de uma área de livre comércio com o Canadá. Nesta sexta-feira, onze países também assinaram uma nova versão do Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica (TPP, na sigla em inglês) sem os americanos.

Na avaliação de Marcos Jorge Lima, ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic), o momento do início das negociações é estratégico e revela a determinação do governo brasileiro de uma maior abertura e participação no comércio internacional. “Enquanto alguns atores internacionais se fecham, o Brasil e os sócios do Mercosul têm demonstrado que é fundamental a integração dos nossos mercados às cadeias globais e de valor. Novos acordos, como este com o Canadá, é um importante caminho”, disse em nota divulgada pelo Mdic.

O ministro canadense também reforçou que a ata assinada nesta sexta-feira manda um recado importante para a comunidade internacional, em um momento que o governo Trump caminha na direção do protecionismo. “Nesta manhã estamos mandando uma mensagem muito forte para o mundo. Acredito que o mundo está nos olhando”, afirmou Champagne.

O chanceler do Uruguai, Rodolfo Nin Novoa, disse à agência EFE esperar que o acordo seja firmado no fim deste ano, já que, segundo ele, as negociações avançariam mais rápido do que com a União Europeia, que se arrasta há quase duas décadas .

Nos últimos anos, a participação brasileira nas importações canadenses oscilou em torno de 0,6%. Já os produtos canadenses representam entre 1% e 1,5% das compras brasileiras. “O Canadá é um importante e exigente mercado consumidor. Em 2017, o fluxo comercial entre Brasil e Canadá foi de cerca de 4,5 bilhões de dólares, com um superávit para o Brasil de pouco mais de 950 milhões. Esperamos aumento expressivo e a diversificação da nossa pauta exportadora que hoje é bastante concentrada”, disse Lima. Nenhum dos participantes da negociação detalhou as questões concretas que serão abordadas no acordo, mas todos ressaltaram que o pacto será de um comércio “inclusivo”.

Para Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e sócio da Barral M Jorge Consultores, o Canadá vem procurando novos parceiros para diminuir a forte dependências dos vizinhos americanos. “Um acordo entre o Mercosul e os canadenses seria vantajoso para ambos lados, porque eles não possuem tantos produtos concorrentes”, afirma.

Acordo UE-Mercosul pode ser acelerado

 

Barral acredita ainda que a sobretaxa para importação de aço e alumínio imposta por Trump causará uma forte desorganização no comércio, com retaliações em cadeia e um alto grau de instabilidade a curto prazo. Ao mesmo tempo, no entanto, ela abre caminho para novos acordos, segundo o ex-secretário. “Eventualmente essas medidas americanas podem aumentar o interesse da União Europeia para um pacto mais célere com o Mercosul”, diz. A Zona do Euro e o Mercosul já negociam um acordo de livre comércio há 19 anos, mas enfrentam desentendimentos quanto a questão agrícola.

Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV, também concorda que a decisão de Trump esta semana aumenta a percepção tanto do Mercosul como da União Europeia de que eles precisam diversificar suas parceiras e que os EUA deixaram de ser um parceiro confiável no âmbito comercial.

Ainda segundo o professor, tanto o início das negociações do bloco da América do Sul com o Canadá como a assinatura da nova versão do TPP podem ser visto com uma reposta clara ao protecionismo americano. “O fato do acordo transpacífico avançar é um símbolo da época que vivemos agora de avanço dos planos sem os EUA. Se antes os americanos era uma nação indispensável dos acordos, a fila andou”, diz Stuenkel. As implicações desse isolamento de Washington vão além do comércio na avaliação do professor. “Quando se aumento o contato comercial com os países, há uma relação política mais intensa também. A posição de poder dos EUA também será menor nos próximos anos”.

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